ELE VEIO MORAR ENTRE NÓS: O grito por dignidade na CF 2026

Pe. Claudemir Ortunho

Assessor Diocesano da Animação Bíblico Catequética – Diocese de Jales

 

A Quarta-feira de Cinzas de 2026 trouxe consigo não apenas o convite ao arrependimento, mas um chamado urgente à justiça social. Com o tema “Fraternidade e Moradia” e o lema bíblico inspirado em João 1,14 — “Ele veio morar entre nós” —, a Igreja Católica no Brasil coloca o dedo em uma das feridas mais profundas da nossa nação: a falta de um teto digno para milhões de irmãos e irmãs.

A Palavra de Deus nos ensina que o Criador não quis ser um Deus distante. Ao se encarnar em Jesus, Ele escolheu “armar sua tenda” na nossa história. No entanto, é doloroso recordar que o próprio Salvador nasceu na precariedade de uma estrebaria, pois “não havia lugar para eles na hospedagem” (Lc 2,7).

Hoje, em 2026, o cenário não mudou para a parcela mais vulnerável da nossa população. O “não haver lugar” se traduz em favelas, ocupações de risco e famílias inteiras vivendo sob pontes. À luz da fé, a moradia não é apenas uma questão de engenharia ou economia; é uma dimensão essencial da dignidade humana. Sem um lar, a família se desintegra, a saúde definha e a cidadania é negada.

Embora programas como o Minha Casa, Minha Vida (MCMV), do Governo Federal, e a CDHU, no Estado de São Paulo, tenham entregue milhões de chaves ao longo das décadas, o déficit habitacional brasileiro permanece alarmante, girando em torno de 6 milhões de famílias sem teto. O problema central é a barreira do financiamento.

Os modelos atuais, baseados majoritariamente no crédito e na capacidade de endividamento, acabam por privilegiar a classe média baixa e as famílias com renda formal. Para os que vivem na extrema pobreza — aqueles que sobrevivem do trabalho informal, os beneficiários de auxílios governamentais mínimos ou os que estão no “mapa da fome” —, a prestação da casa própria, por menor que seja, compete diretamente com o prato de comida.

“A política é uma das formas mais altas da caridade”, já dizia o Papa Francisco. Mas essa caridade política falha quando se ignora que a camada mais pobre da pirâmide social precisa de subsídio integral e locação social, e não apenas de parcelamentos bancários. Atualmente, o maior componente do déficit habitacional no Brasil é o ônus excessivo com aluguel. Famílias sacrificam mais de 30% de sua renda miserável para manter um teto, muitas vezes em condições insalubres. Isso gera um ciclo de pobreza onde nunca sobra recurso para a educação ou saúde, pois a prioridade é não ser despejado.

Políticas públicas eficazes em 2026 precisam ir além da construção de conjuntos habitacionais periféricos, longe dos empregos e serviços.  A Campanha da Fraternidade 2026 nos recorda que não podemos celebrar a Páscoa de Cristo ignorando o calvário de quem não tem onde reclinar a cabeça. Garantir moradia digna para os mais pobres não é “caridade” opcional, é dever do Estado e exigência do Evangelho.

Que este tempo quaresmal converta nossos corações e as nossas leis, para que a profecia de Isaías se cumpra: “Meu povo habitará em mansões de paz, em moradas seguras e em abrigos tranquilos” (Is 32,18). Só então poderemos dizer, com verdade, que o Senhor realmente mora entre nós.

 

 

Ouroeste, 05 de março de 2026

 

 

Últimos Posts