Carta “REZAR EM CASA”

  Estimados irmãos, estimadas irmãs. Paz e bem!

O “isolamento social” que hoje nos condiciona a “ficar em casa” para evitarmos a disseminação do Coronavírus, desafia nossa Igreja a viver mais intensamente seu perfil doméstico. O conceito de “Igreja Doméstica”, reconhecido pelo Concílio Vaticano II (cf. LG 11), reconstitui características fundantes da Igreja. Ela foi criada, se desenvolveu e se sustenta sobretudo no contexto doméstico, desde o qual está desafiada a viver sua identidade orante, bíblico-catequética e pastoral. Embora essas três dimensões estejam integradas, apresentamos aqui, sugestões, exclusivamente relacionadas à sua identidade orante, para nos ajudar a “rezar em casa”.

A Igreja no Brasil, em suas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora (DGAE, nº 40), ressalta a importância de cada família cristã, unida a outras famílias, como Comunidade Eclesial Missionária, “meditar a Palavra, rezar, partilhar o pão e a vida”, tornando-se dessa forma, sujeito fundamental de vivência eclesial, protagonista da iniciação à vida cristã e propulsora da ação missionária. Como viver a dimensão orante da Igreja, conforme essa orientação? O momento atual é oportuno para vivenciarmos de forma orante no contexto familiar, o que Cristo diz: “onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali eu estarei, no meio deles” (Mt 18,20).

Rezando em casa, em família, Cristo se manifesta no meio de nós. Rezar em casa? Sim, porque nossa casa é, também, templo de Deus; é “lugar” de convívio, abrigo, amparo, proteção, encontro, carinho, cuidado, comunhão e oração. “A casa, enquanto espaço familiar, foi um dos lugares privilegiados de encontro de Jesus com seus seguidores” (DGAE, nº 73). Por isso, a liturgia em casa propicia um encontro amoroso com Deus, que nos acolhe em seu aconchego e transforma nossa vida, como transformou a vida de Abraão, Moisés, Elias, Maria, João Batista, Simão, Tiago, André, João, Maria Madalena, Lázaro, Marta e Maria, enfim, multidões.

Como, então, rezar em casa? É indispensável prepararmos bem todos os momentos e tipos de oração, antes de tudo, criando um ambiente fraterno e acolhedor, “espiritualizado”, que motive todos a estarem focados na oração que vivenciarem juntos. Cada forma de oração implica uma preparação específica, seja para a Leitura Orante da Bíblia, a Oração do Terço, a Oração das Refeições e as Novenas, ou para acompanhar a transmissão de Celebrações pelos meios de comunicação, especialmente a Celebração Eucarística, centro da vida da Igreja, que nos une como Igreja, Povo de Deus, no qual Cristo se manifesta ressuscitado.

Rezar em casa é, enfim, uma forma de viver um verdadeiro encontro com o Cristo Ressuscitado, ao estilo das primeiras comunidades: “Eles eram perseverantes no ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações” (At 2,42). Esse encontro gera comunhão: “A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava suas as coisas que possuía, mas tudo entre eles era posto em comum. Com grande poder, os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e sobre todos eles repousava generosamente a graça de Deus. Entre eles ninguém passava necessidade” (At 4,32-34).

Esse “retorno às origens” da Igreja fortalece nossa fé, nosso vínculo como irmãos e nossa missão na sociedade. Na última ceia com seus discípulos, Jesus celebrou a páscoa, associando ao pão e ao vinho partilhados, sua própria vida oferecida para a vida do mundo, confirmando o que Ele havia anunciado: “Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância” (Jo 10,10). Celebrando a eucaristia, a Igreja atualiza essa ação de Cristo. A eucaristia é, pois, muito mais que uma celebração. Ela é uma dimensão fundamental da vida cristã que deve se manifestar na qualidade de nossas relações interpessoais e da organização de nossa vida social.

Onde a vida e o pão são partilhados, Cristo está presente. Sua presença na eucaristia é mais que simbólica. Ela é real pela consagração do pão e do vinho substancialmente transformados em corpo e sangue de Cristo, que significam e dão “vida para o mundo” (Jo 6,51). Cristo está sacramentalmente presente sob as espécies de pão e vinho consagrados, significando seu corpo sacrificado e seu sangue derramado na cruz para salvação da humanidade. Mas, ele se faz também presente nas Comunidades Eclesiais Missionárias que, desde o contexto familiar, se constituem alicerces da Igreja, Corpo Místico de Cristo, vivo e vivificante.

A comunhão sacramental é tão importante para nossa fé que supõe comunhão espiritual. Na impossibilidade de a realizarmos sacramentalmente, devemos compreender a importância da comunhão espiritual, podendo ser igualmente frutuosa, dependendo da intensidade de nosso amor a Cristo e de nossa confiança nas graças que ele nos concede, e nosso compromisso em eucaristizar nossa convivência e nossa organização social. Por isso, atualmente e em outras circunstâncias, a comunhão espiritual, vivenciada em nossas casas, cultivando em nossos corações o desejo de que o Senhor esteja conosco, nos une a toda a Igreja.

Assim como Cristo se fez presente na caminhada e na casa dos discípulos de Emaús, aquecendo seus corações com sua Palavra e se manifestando presente no pão abençoado e partilhado (cf. Lc 24,29), ele quer se fazer presente em nossos lares. Saibamos acolhê-lo por meio da Palavra de Deus, por nossa oração nela inspirada e por nossa fraterna união. Inspirados nesses discípulos, digamos-lhe, mais ainda agora: “Fica conosco, Senhor! É tarde e a noite já vem! Fica conosco Senhor, somos teus seguidores também”. Ilumina, Senhor, nossa vida pessoal, familiar, eclesial e social. Ajuda-nos a compreender a tua presença em “nossa casa”!

SUGESTÕES PRÁTICAS

  • Programemos momentos de oração pessoal e em família, de forma regular, tomando em conta as programações de nossas Paróquias e da Diocese.
  • Criemos em casa um espaço apropriado para oração pessoal ou em família, com a Bíblia, cruz, imagem da Virgem Maria, vela e, se possível, um vaso de flor sobre um pequeno altar.
  • Preparemo-nos antes dos momentos de oração pessoal, familiar e transmitidos pelos meios de comunicação e redes sociais, em silêncio diante de Deus, apresentando-lhe intenções especiais.
  • Vivenciemos com profundidade espiritual os momentos de oração transmitidos pelos meios de comunicação e redes sociais, sobretudo as celebrações eucarísticas.
  • Realizemos a Leitura Orante da Bíblia, se possível, diariamente, utilizando as leituras bíblicas da Liturgia do Dia, principalmente o Evangelho, e seguindo esse método adequadamente.
  • Realizemos individualmente e em família os Encontros de Reflexão e Oração elaborados pela Equipe Diocesana de Subsídios e outros encontros sugeridos pelos padres da Diocese.
  • Rezemos o Terço, individualmente e em família, quando possível, em sintonia com o Terço de nossas comunidades, transmitido pelos meios de comunicação e pelas redes sociais.
  • Acompanhemos e rezemos com toda a Igreja Diocesana a “Hora da Ave-Maria”, transmitida de segunda-feira a sábado, às 18h, pelas rádios da Diocese e outras rádios da região.

Que essas sugestões para “Rezar em Casa” nos ajudem a continuar crescendo em direção a Cristo (cf. Ef 4,15), unindo-nos ainda mais no sofrimento que a pandemia atual e outros problemas estão nos causando, bem como na missão que Cristo nos confia. Enfim, completamos o que em nossa carne falta às tribulações de Cristo, em favor do seu corpo que é a Igreja (cf. Cl 1,24). Se nesse corpo, “um membro sofre, todos os membros sofrem com ele” (1Cor 12,26). Por isso, mantenhamo-nos solidários, especialmente com as vítimas do Coronavírus e com todos os que, igualmente sofrem doando suas vidas para salvar a vida dos demais.

Fraternalmente em Cristo

Dom Reginaldo Andrietta, Bispo Diocesano de Jales

Pe. Valter Lucato Campano Júnior, Assessor Diocesano de Liturgia

Jales, 05 de maio de 2020.

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