Representantes do povo ou das elites? - Diocese de Jales

Representantes do povo ou das elites?

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Para uma ação sábia, precisamos fazer um discernimento iluminado para nossas escolhas. Como compreender o mundo em que vivemos? O ambiente familiar deixa marcas sobre a visão de mundo. A escola também contribui para isto. O lugar que ocupamos na sociedade nos condiciona na busca que tentamos fazer. A religião nos ajuda a enxergar a vida sob o ponto de vista da procura de um sentido mais amplo.

A realidade social não está nessa gritante desigualdade por mero acaso. Pelo contrário, é produto de articulações e escolhas bem manobradas pelos poderosos. Admiro muito quando leio a Bíblia e percebo que, já naquele tempo, o povo tinha consciência sobre as ações pensadas. Dizia Jesus, que entre as Nações, o maior é aquele que explora, guerreia, destrói e mata. Entre seus seguidores, no entanto, quem quiser ser o maior, tem que servir, praticar a solidariedade, construir os valores do Reino dos Céus.

No entanto, os poderosos vão criando espaços para dominar, oprimir. Ainda prevalecem as forças militares, as guerras, como formas de resolver problemas e conflitos. Torna-se necessário iludir, com notícias falsas, “Fake News”, para as pessoas acreditarem que está sendo feito assim pelo bem maior.

Jesus está muitas vezes em conflito com escribas e fariseus, autoridades religiosas do tempo, falando que a verdadeira religião é aquela que se compromete com os abandonados ou discriminados, que se solidariza com o violentado conforme a parábola do Bom Samaritano.

A desigualdade social no Brasil expressa-se pela concentração da renda e da riqueza. Cerca de 10% ficam com 75% da riqueza nacional. E de outro lado, 8,5 milhões vivem em extrema pobreza. Essa elite de famílias reproduz hoje o modelo de dominação da Casa Grande escravista, usando o poder do Estado para garantir e aumentar sua riqueza, e reprimir quem propõe as reformas estruturais (agrária, tributária, política, urbana e do Estado). Os pobres, os trabalhadores explorados, os injustiçados pelas leis, são maioria absoluta. Como que numa democracia a maioria dos eleitos representam as elites opressoras? A lei eleitoral continua favorecendo aqueles candidatos que estão ligados aos ricos. Os representantes dos pobres terão que fazer um esforço gigantesco de mobilização de militantes. Sim, aí está a questão. Torna-se necessário criar condições para uma grande conscientização da população trabalhadora, de habitantes dos bairros populares, para que compreendam a importância de escolher quem vai lutar por seus direitos. Como organizar-se? Os dominadores continuarão fazendo leis que dificultem essa organização. É preciso conversar com grupos de vizinhos, e colegas de trabalho, nas filas de espera, tentando ver se nossas escolhas políticas estão favorecendo aos pobres ou aos ricos.

Una-se com quem passa pela mesma dificuldade e organize-se para buscar saídas. As situações de violência aos Direitos Humanos acontecem nos bairros, geralmente desassistidos, nas escolas, nos postos de saúde, no desemprego, moradia, etc. Somos cidadãos dessa Pátria Brasil e cidadãos do Reino dos Céus. “A solidariedade é o sentimento que melhor expressa o respeito pela dignidade humana. ” (Franz Kafka)

Padre Antônio de Jesus Sardinha
Vigário Geral da Diocese de Jales

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