“PRIMAVERA FEMININA”

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Dom Reginaldo Andrietta, Bispo Diocesano de Jales

Oito de março é o Dia Internacional da Mulher. Como as mulheres gostariam de comemorá-lo? Recebendo flores e presentes? Que bom receberem símbolos; melhor ainda serem respeitadas em sua dignidade e reconhecidas em seus direitos, finalidades dessa comemoração oficializada pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 1975. Ela surgiu de lutas sociais e políticas, especialmente de mulheres trabalhadoras.

No dia oito de março de 1857, trabalhadores de uma indústria têxtil, de Nova Iorque, fizeram uma greve por melhores condições de trabalho e igualdade de direitos trabalhistas para as mulheres, movimento este reprimido com violência pela polícia. No dia oito de março de 1908, trabalhadoras do comércio de agulhas de Nova Iorque, fizeram uma manifestação para recordar esse movimento e exigir o voto feminino e o fim do trabalho infantil, sendo igualmente reprimidas.

Reconhecendo a importância dessa luta, uma Conferência Internacional de Trabalhadores e Trabalhadoras, realizada na Dinamarca, em 1910, decidiu que o oito de março seria o Dia Internacional da Mulher. Essa data passou a ser ainda mais significativa a partir de 25 de março do ano seguinte, quando um incêndio em uma fábrica têxtil de Nova Iorque, causado por condições precárias de trabalho, matou 146 trabalhadores, sendo 123 mulheres.

Desde então, a luta das mulheres foi se expandindo, possibilitando muitas conquistas, entre as quais o direito ao voto feminino e a cargos públicos. Sua participação na cena eleitoral começou na Nova Zelândia, em 1893; na Finlândia, em 1906; e nos Estados Unidos, em 1919. No Brasil, o direito de voto das mulheres foi estabelecido por decreto, em 1932, e consolidado na Constituição de 1934.

Explorações e discriminações sofridas pelas mulheres, especialmente no trabalho, se tornaram focos de luta. No Brasil, por exemplo, a luta das empregadas domésticas por direitos iguais às demais categorias profissionais, dura cerca de um século; tomou expressão nacional a partir dos anos 50, perpassou os tempos sombrios da ditadura militar e alcançou êxito legal em 2015, no período de uma mulher, representante da classe trabalhadora, como presidente da República.

Apesar das conquistas, as discriminações contra as mulheres continuam alarmantes. No Brasil, seus salários são, em média, 73% dos homens. A diferença é ainda maior para as afrodescendentes. Elas são discriminadas nos cargos e carreiras, inclusive em funções públicas: 52% dos eleitores são mulheres, mas apenas 9,9% da Câmara dos Deputados e 5% do Senado são ocupados por mulheres.

Hoje, no Brasil, os trabalhadores estão correndo o risco de pagar longamente por uma aposentadoria que não usufruirão ou muito pouco. A falsidade apregoada para poder mudar as regras do INSS, alongando o tempo de contribuição e de serviço, visa dar sustentabilidade às empresas que contarão com menos mão de obra jovem, eximindo por mais tempo, tanto elas como o Estado, de partilharem benefícios. As mulheres, como sempre, serão as mais afetadas.

Por isso, até mesmo a ONU realizará de 14 a 24 de março deste ano, debates sobre o empoderamento das mulheres e seu vínculo com o desenvolvimento sustentável, focalizando todo tipo de violência cometida contra elas. Merece destaque nessa luta, a Marcha Mundial das Mulheres que, desde o ano 2000, realiza grandes mobilizações, especialmente no dia oito de março.

Que as flores e presentes no oito de março sejam, portanto, reconhecimentos da “primavera feminina”. Ao lutarem por seus direitos, as mulheres lutam pela sustentabilidade da vida. Essa luta é profundamente cristã, afinal o próprio filho de Deus assumiu a condição humana por meio de uma mulher que se tornou início de uma nova humanidade, sem dominadores e dominados (cf. Lc 1,52).

Jales, 01 de março de 2017.

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