Diocese de Jales

Artigos › 14/02/2019

Perseverar no amor fraterno

A célebre tríade da Revolução Francesa – liberdade, igualdade, fraternidade – marcou de tal modo a civilização moderna, que o principal documento desta civilização, a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), traz em seu artigo I: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos (…) e devem agir uns em relação aos outros com espírito de fraternidade”.

O terceiro termo, fraternidade, tornou-se periférico em relação aos outros, pois enquanto os dois primeiros podem ser invocados como direitos, a fraternidade está ligada muito mais à ideia de dever, e principalmente ao dever de reconhecer o outro como irmão.

Reconhecer o outro como irmão é assumir responsabilidades por ele, exercendo a solidariedade. No sentido jurídico, responsabilidade significa a situação em que cada membro de uma relação responde pelos demais, principalmente no que diz respeito ao pagamento de uma dívida. O contrário da solidariedade é a indiferença.

Reconhecer o outro como irmão é também respeitá-lo. A pessoa é livre quando não está submetida a uma vontade alheia, mas pode fazer escolhas e enfrentar as consequências dos seus atos, inclusive pagando o preço dos seus erros. O contrário do respeito é a coisificação, que é ver o outro como objeto e negar sua condição de autor daquilo que faz.

Reconhecer o outro como irmão, por fim, é afirma-lo como igual a si mesmo, criando uma relação recíproca: o outro tem os mesmos direitos e mesmos deveres que eu. Deve haver uma simetria entre as pessoas, considerando que não há direitos sem deveres e não há deveres sem direitos. O contrário da reciprocidade é a parcialidade, de querer para si os direitos e deixar para os outros os deveres.

Assim, a fraternidade é uma atitude complexa que abrange não só a solidariedade, mas também o respeito e a reciprocidade. A solidariedade é apenas uma dimensão da fraternidade, e não pode ser pensada como uma atitude exclusiva na relação com o outro.

Grandes ações solidárias têm unido as pessoas para ajudar os que mais precisam, principalmente nas grandes tragédias. Isso é sinal de que sabemos nos unir na solidariedade, mas ainda precisamos aprender muito sobre fraternidade.

O Estado Social tradicional estruturou-se segundo uma lógica puramente solidária e a consequência disso foi o crescimento da indiferença e da parcialidade entre as pessoas na sociedade. Aprendemos a cobrar as ações do Estado, e isso é necessário, mas ainda precisamos fortalecer a nossa relação fraterna, de corresponsabilidades.

A Carta aos Hebreus traz a seguinte recomendação: “Perseverai no amor fraterno” (Hb 13,1). A grande contribuição do cristianismo para mundo continua sendo o ensinamento de que somos todos irmãos, por isso Jesus nos ensinou a chamar Deus de Pai.

A fraternidade é o princípio de organização de uma sociedade participativa, para que todos sejam responsáveis por todos em todos os momentos, não somente nas situações trágicas. Por isso, precisamos pensar bem as nossas ações, pois tudo o que fazemos ou deixamos de fazer, de alguma forma, repercute na vida do outro, que é nosso irmão.

Padre Rodolfo Cabrini de Oliveira
Paróquia Santo Expedito Fernandópolis

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