Diocese de Jales

Mensagem do Bispo › 07/02/2019

NOVO DESTINO AO VALE DE LÁGRIMAS

Dom Reginaldo Andrietta
Bispo Diocesano de Jales

As catástrofes de Brumadinho, de Mariana e outras pouco conhecidas, evidenciam o caráter criminoso da exploração mineral no Brasil, feita por grandes grupos econômicos nacionais e internacionais. O Estado, governos entreguistas e políticos que se utilizam desse negócio bilionário são cúmplices desse crime. No entanto, nós, cidadãos comuns, se formos indiferentes e omissos à lógica econômica e política que propicia essa criminalidade, podemos “dormir tranquilos”? Jamais, especialmente cristãos.

Pessoas e entidades cristãs, por se proporem defender a vida e criar uma sociabilidade saudável, têm responsabilidade especial frente a esse problema. A Igreja faz sua parte, atuando de modo sempre mais lúcido onde a mineração é predatória: solidarizando-se com as vítimas, promovendo ações que responsabilizam as empresas mineradoras por seus danos e exigindo dos governos mudanças do modelo historicamente cruel de desenvolvimento econômico, para torná-lo social e ecologicamente sustentável.

O filme “Buraco do rato”, do Comitê Nacional em Defesa dos Territórios Frente à Mineração, disponível na internet, denuncia os interesses, especialmente internacionais, da mineração predatória no Brasil, que começou com a invasão portuguesa, há 500 anos. A Coroa de Portugal declarou-se dona de todo metal encontrado. Na República, a Constituição de 1891 garantiu a propriedade aos donos de terras e minas de metais preciosos, favorecendo o uso privado e insensato da mineração.

Nessa época, a Europa e os Estados Unidos já usavam a liga de carbono e ferro para a produção do aço, razão pela qual os ingleses compraram, em 1909, todas as reservas de minério de ferro de Minas Gerais. A exploração desse minério passou a ser feita por uma empresa de capital inglês. Em 1942, por um acordo com a Inglaterra e os Estados Unidos, criou-se a Companhia Vale do Rio Doce, fornecendo-lhes minério de ferro para a indústria, especialmente da guerra, e para a reconstrução de países por esta destruídos.

Esses países se tornaram potências. O Brasil, no entanto, conservou-se fornecedor de matérias primas para o mundo, à custa de um desenvolvimento dependente, da exploração dos trabalhadores, da miséria social e da degradação ambiental. Apesar da Vale do Rio Doce ter se tornado uma das maiores mineradoras do mundo, foi privatizada em 1997, pelo governo neoliberal de então, por um valor muitíssimo abaixo do mercado, em cuja avaliação participou, ilegalmente, um de seus compradores.

Seu leilão é objeto de ações judiciais inconclusas. Restam, também, perguntas. O que valeu privatizá-la? Melhorou a vida de seus trabalhadores e da população de seus entornos? Se a fiscalização socioambiental de empresas estatais é escassa, não são piores nas empresas privadas? Estas burlam mais as normas de segurança, a exemplo do laudo da Vale, em Brumadinho, acusado de fraude. Ademais, ao doar somas altíssimas a candidatos e políticos, visa sobrepor seus interesses corporativos ao bem comum.

A justiça humana continuará cega diante disso? A justiça divina não. Na visão cristã, Deus vê a opressão de seu povo e o liberta (cf. Ex 3,7-8). A morte, causada por tão grandes pecados, jamais será vitoriosa (cf. 1Cor 15,55). Cabe-nos crer na possibilidade de transformações profundas em nossa coexistência e mudanças radicais em nosso modelo perverso de desenvolvimento econômico e social. Cristo ressuscitado é a razão de nossa esperança. Com ele, poderemos dar um novo destino ao que é “Vale de Lágrimas”.

Jales, 07 de fevereiro de 2019.

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