Igrejas no mundo urbano

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“Saiamos! Prefiro uma igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças” (EG. 49)

De 23 a 27 estará acontecendo em Londrina o Encontro Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base, um evento nacional, com cerca de 3000 delegados, homens, mulheres e jovens. A Diocese de Jales também estará presente. “ O que é que vocês estão procurando? (Jo 1,38). “Onde moras? ” Onde vives?

O que é que a humanidade procura? Qual o sentido da vida? Por que vivemos? “Graças a este encontro ou reencontro, com o amor de Deus, que se converte em amizade feliz”, é que “ chegamos a ser plenamente humanos, quando permitimos a Deus que nos conduza para além de nós mesmos, a fim de alcançarmos o nosso ser mais verdadeiro”. (EG.8)

As Comunidades Eclesiais de Base são experiências vividas na Igreja latino-americana, e daí expandidas para outros continentes, num esforço de viver “a conversão que lhes restitua a alegria da fé e o desejo de se comprometerem com o Evangelho” (EG.14). A missão da Igreja exige “passar de uma pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionária”. (DAp.548).

“ A religião é ópio do povo” (Marx). O que faz o ópio? É uma droga que tem propriedade anestésica, utilizada como sedativo, como tranquilizante. Essa não é a missão da Igreja.

Neste ano em que a Igreja Católica reflete o Evangelho de Marcos em suas liturgias, é oportuno passar pelos sete critérios que ele coloca para ser uma Comunidade Cristã. A criação da Comunidade. Chama os seguidores e vão em missão (Mc 1,16-20). Um primeiro e forte grupo. Em segundo lugar devem aprender a ter senso crítico. Vão notar a diferença do ensino de Jesus e o dos escribas (Mc 1,21-22). Para seguir Jesus, o ser humano precisa ter consciência e liberdade. Não pode ser manipulado, dominado, alienado. Aí entramos no terceiro critério, que é combater o poder do mal, que estraga a vida e aliena as pessoas. É isto que significa a expulsão do espírito impuro (Mc 1,23-28). O quarto critério é restaurar a vida para o serviço, é criar a consciência de serviço. Jesus cura a sogra de Pedro, e ela começou a servir (Mc 1,29-34). O quinto valor da Comunidade é o diálogo com o Pai, pois a oração é o cimento que une entre si os tijolos das atividades e dá consistência e firmeza às paredes da casa. Daí, no sexto critério, é importante a Comunidade manter a consciência da missão. Não parar. Seguir adiante. “Vamos para outros lugares. Devo pregar também ali” (Mc 1, 35-39). E a última condição da Comunidade é reintegrar os marginalizados na convivência. Jesus cura um leproso e pede que se apresente ao sacerdote para ser declarado purificado e voltar a conviver (Mc 1,40-45). O lugar dos marginalizados é o lugar onde se pode encontrar Jesus.

O encontro com Jesus deve proporcionar uma consciência de fé comprometida com o Reino (ser cristão), que ao mesmo tempo é comprometida com a sociedade (ser cidadão). Por isso o cristão se engaja num grupo (como os apóstolos) e trata de construir a cidade, através de ações honestas, solidárias, pacíficas e permanentes. Assim, o cristão (católico ou evangélico) vai caminhar unido diante dos desafios da moradia, mobilidade urbana, violência, meio ambiente e sustentabilidade, trabalho, saúde, educação, esporte e lazer, arte e cultura, tecnologias de informação, divisão e exclusão, insegurança pública, povo de rua, e etc.

Afinal, a fé tem que mobilizar pelo direito à cidade. Ter consciência desses mecanismos, conhecer o Estatuto da Cidade, participar da construção de um Plano Diretor. A cidade precisa ser inclusiva. O cristão verdadeiro é aquele que tem consciência da existência de tranquilizantes, mas escolhe o envolvimento de libertação de todas as correntes escravizadoras.

Então, o cristão tem que encontrar espaço na sua vivência de fé de modo a procurar soluções diante dos desafios, tomar consciência deles e partilhar com a comunidade; buscar viver bem informado e exercer a cidadania; não se fechar no passado e ser crítico com o novo; ser humano e ser cristão (mais do que ser católico ou evangélico); refazer o relacionamento humano onde mora, vive, e atua como cidadão e cristão.

Portanto, o desafio da fé é ser cidadão do Reino sem estranhar a necessária participação das organizações populares nas lutas pelas causas dos excluídos!

Pe. Antônio de Jesus Sardinha, Vigário Geral

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