DESAFIOS DO MUNDO URBANO

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Dom Reginaldo Andrietta, Bispo Diocesano de Jales

O mundo urbano se apresenta, hoje, como um grande desafio para as políticas públicas e muitas instituições, particularmente as Igrejas. Segundo o IBGE, 85% da população brasileira vive nas cidades, sobretudo nos grandes centros urbanos, onde se concentram muitíssimos problemas sociais, agravados atualmente, pelo alto índice de desemprego e pelas condições precárias de trabalho. Como a Igreja Católica encara esse desafio?
A questão urbana exige uma política nacional de desenvolvimento que implique a participação social na gestão pública. O Estatuto da Cidade, conforme a Lei 10.257, de 2001, assinala a necessidade da gestão democrática das cidades, garantindo direito à participação cidadã no planejamento e na gestão urbana. Com a criação do Ministério das Cidades, em 2003, a questão urbana foi assumida como uma questão nacional a ser enfrentada por macro políticas públicas.
Conferências Nacionais das Cidades, envolvendo milhares de pessoas, desde os níveis municipal e estadual, já manifestaram o grande interesse da sociedade brasileira com relação às políticas públicas urbanas e enfatizaram a importância dos Conselhos Municipais de composição paritária entre Estado e sociedade civil, na formulação e controle da execução de políticas públicas setoriais, tais como criança e adolescente, juventude, idoso, saúde, assistência social e segurança.
A cidade, hoje, demanda participação sócio-política orientada por projetos globais construídos coletiva e progressivamente, tendo como eixo central um modelo alternativo de vida em sociedade, que contemple o equilíbrio entre campo e cidade e a relação harmoniosa entre os cidadãos e com meio ambiente, partindo-se de situações concretas a serem transformadas com a implicação de todas as pessoas, segundo o princípio de cidadania responsável.
Esses projetos globais, amplamente participativos, devem servir de orientação para o desenvolvimento, em sinergia, de ações locais e setoriais. No que tange à contribuição dos cristãos, esses projetos pressupõem diálogo, entendimento e ações comuns entre agentes das distintas Igrejas, assegurando respeito às diferenças religiosas, aos princípios morais e aos costumes, pois o mundo urbano é multireligioso e pluricultural.
Ademais, as Igrejas têm como desafio próprio, superarem a redução da religião à esfera privada e individual, e assumirem sua responsabilidade pelo bem comum, orientadas por uma espiritualidade autenticamente cristã, contraposta à acumulação de riquezas e à ostentação de escandalosos padrões de consumo, em um país no qual milhões de pessoas amargam o desemprego, condições precárias de trabalho e extrema pobreza.
A Igreja Católica tem contribuído significativamente com sua pastoral inculturada na realidade urbana, de modo especial, por meio de Pastorais Sociais e Comunidades Eclesiais de Base disseminadas sobretudo nas realidades de pobreza, empoderando setores explorados e socialmente excluídos, e conjugando esforços com movimentos sociais democráticos que atuam desde essas realidades, na construção de um modelo social, político e econômico alternativo.
Os encontros nacionais das Comunidades Eclesiais de Base, chamados “Intereclesiais de CEBs”, de modo especial o 14º Intereclesial a ser realizado em Londrina – PR, entre os dias 23 e 28 de janeiro de 2018, no qual cerca de 4 mil participantes tratarão os “desafios do mundo urbano”, certamente continuarão contribuindo muito para a Igreja no Brasil atuar de modo ainda mais concreto na construção desse modelo alternativo de sociedade. Que outros setores da vida social, sobretudo gestores públicos, encarem esses desafios com igual seriedade!

Jales, 14 de setembro de 2017.

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