CARNE FRACA, ESPÍRITO FORTE

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Dom Reginaldo Andrietta, Bispo Diocesano de Jales

No Brasil dos dias atuais, a expressão “carne fraca” está sendo utilizada na Operação da Polícia Federal em combate à falsa qualidade de alguns produtos comercializados por frigoríficos de renome nacional e internacional, acobertados por agentes públicos. Evidentemente, essa operação faz sentido. Por que, no entanto, tornou-se pública imediatamente após as grandes manifestações nacionais contra os projetos de Reforma da Previdência e Trabalhista?

O amplo debate sobre essas reformas ficou, de repente, obscurecido. O calor da discussão sobre as mesmas esfriou-se. A grande mídia conseguiu substituir a pauta das reformas, que estava se popularizando e tomando grandes proporções, pela temática da “carne podre”. Enquanto o legislativo federal está em processo de discussão e votação dessas reformas, a mídia burguesa tenta desviar a atenção da sociedade brasileira para a Operação Carne Fraca.

Nesse contexto, vale a pena relacionar o nome dessa operação à fraqueza da carne mencionada por Jesus. Ele, na eminência de ser preso, condenado e morto, vendo seus discípulos adormecidos, lhes diz: “Vigiem e orem para não caírem em tentação, porque o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26,41). Certamente, Jesus se refere à fragilidade humana, experimentada pelos discípulos e por Ele também, na missão confiada por Deus Pai, em confronto com detentores do poder.

Os soberanos judeus, aliados ao Império Romano, após tentarem, sem sucesso, desmoralizar o projeto de Jesus e reprimir suas ações em favor do povo pobre e oprimido, decidem eliminá-lo. Em torno de Jesus surge um grande movimento popular, marcado ainda por incoerências. Muitos o seguem, pensando que Ele irá instaurar um novo governo. O projeto dele, no entanto, é mais profundo, coloca em questão o sistema de vida em sociedade, no seu todo.

Ao pedir a seus discípulos que vigiem e orem porque a “carne é fraca”, Jesus mostra a fragilidade das pessoas e do movimento criado em torno dele. Por isso, exorta os “adormecidos” a acreditarem na força que vem de Deus, colocando-se em sintonia com Ele, função esta da oração. Da sinergia coletiva dos discípulos com Deus, emerge um poder que nenhum outro pode suplantar. Jesus revela que o povo, impregnado do Espírito de Deus, tem condições de vencer as investidas do poder.

Hoje, os cidadãos comuns, pressionados por políticas econômicas que arrocham salários, geram desempregos e suprimem direitos, estão perplexos frente à situação do país. O novo governo, de legitimidade duvidosa, prometia uma retomada do crescimento econômico. Nota-se, no entanto, uma tendência ao agravamento dos problemas. Os empregos prometidos estão sendo ainda mais reduzidos, e os impostos, já altos, estão sendo aumentados.

A perplexidade de nosso povo se funda na confiança defraudada. Os cidadãos se sentem e se tornam, realmente traídos, porque a solução de seus problemas, confiada a seus representantes, têm resultado em fracasso. Por que? Ao transferirem a outrem a responsabilidade de gestão social, sem direcionamento e controle social, renunciam ser sujeitos e protagonistas. A incoerência é de todos que assim atuam. Deste modo, a carne revela-se, realmente, fraca.

Criemos, então, uma nova consciência, divinamente inspirada, que emerge do amplo debate sobre tudo que envolve nossa vida social, sem perder o foco no que é relevante. Debatamos, portando, a respeito de tudo, inclusive sobre a Operação Carne Fraca. No entanto, estejamos agora, focados em manifestarmo-nos frente aos trágicos projetos de Reforma da Previdência e Trabalhista, reagindo coletivamente com sabedoria divina, ou seja, “Espírito Forte”.

Jales, 23 de março de 2017

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