Diocese de Jales

Artigos › 28/03/2019

A EDUCAÇÃO GRITA POR SOCORRO

Dois criminosos entram na Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano, e ceifam vidas”. Quando ficamos sabendo de notícias como esta, os primeiros sentimentos que nos invadem são o medo e a insegurança que vivemos diariamente.

Devemos, no entanto, nos perguntar sobre o que gerou essa manifestação violenta, nessa proporção? Será que não foi à influência da cibercultura, por exemplo, jogos virtuais de violência que, hoje, colocam em risco nossas crianças e jovens? O poder público, de imediato, respondeu a esse acontecimento advogando a necessidade de armamento da população, dizendo, inclusive, que se os professores estivessem armados teriam evitado ou diminuído a proporção desse crime.

Essa concepção deve ser bem analisada, pois em uma sociedade na qual prevalece o discurso do ódio, liberar armas para a população seria colocar mais combustível na fogueira da violência. Estamos, pois, vivendo em um tempo de manifestações antissociais e discursos irresponsáveis. Necessitamos observar e analisar criticamente essas ações e concepções ultraliberais, que acentuam o poder dos indivíduos em detrimento do bem coletivo.

Acrescenta-se a isso, a globalização neoliberal, favorecida pela tecnologia da informação, quando esta estimula a cultura da violência, sobretudo pelas redes sociais, utilizadas, comumente para agressões ideológicas. Pessoas alienadas com posturas antidemocráticas, não valorizam o diálogo e, menos ainda, as instituições educacionais.

Vivemos em uma crise de identidade e de valores. Para muitos, é difícil, acreditar em mudanças sociais significativas. No entanto, a sociedade, não está estagnada. Conseguimos ver no cotidiano das ruas e das redes sociais, os movimentos dos trabalhadores, a luta pelos direitos humanos de pessoas despojadas de sua dignidade e por uma educação de qualidade. Aqui está a importância da participação social e do diálogo entre todas as camadas da sociedade, em especial dos mais afetados pelas desigualdades e discriminações.

Educação de qualidade implica análise crítica de fatos sociais, a exemplo do massacre de Suzano. Em uma análise mais profunda, esse fato não deve ser visto somente a partir das condições de quem cometeu o crime, mas o que influenciou a cometê-lo. Consequentemente, seremos ingênuos se acreditarmos que investir somente em segurança pública e pessoas armadas nas escolas resolveriam o problema da violência.

Precisamos, na realidade, rever o conceito de educação e dar-lhe novos rumos e sustentabilidade. Por isso, necessitamos de um olhar atento às condições precárias que muitos professores vivem no seu dia a dia para ensinar, por exemplo, escolas sem estruturas adequadas para um bom desempenho do ensino-aprendizagem.

As armas que as futuras gerações precisam são os livros, ou seja, o conhecimento que transforma e cria possibilidades de uma formação humana integral pautada em valores éticos. Não é isso que está sendo, oficialmente, proposto. Os ataques ideológicos sofridos por educadores e os investimentos reduzidos na educação o comprovam. Por isso, a educação grita por socorro.

Jales, 28 de março de 2019.

Adriano Marques Fernandes
Professor de Filosofia, Sociologia e História
Supervisor do Polo Claretiano de Jales

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